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Literatura de Cordel - “Eleição em cidade pequena”

* Janduhi Dantas


Da bela Campina Grande
não há quem não seja fã
na cultura popular
cidade da mais titã...
eu nunca mais tinha ido
fui lá sábado de manhã.
                                                                                                                         
Eu fui no Açude Velho
e depois no Açude Novo
fui no Sebo O Cata Livros
passei no Parque do Povo
do Maior São João do Mundo
que do mundo tem aprovo.
                                                                                                                
Depois passei pela rua
da Livraria Pedroza
que hoje não mais existe
onde em época a mim saudosa
comprei “Menino de Engenho”
uma obra fabulosa.

Passei na Loja do Treze
que é freguês do Nacional
na Livraria Cultura
no Calçadão e ao final
fui na Praça da Bandeira
da cidade a mais central.

Entrei na Banca do Orlando
passei no Café Aurora
até dei milho pros pombos
fiquei lá fazendo hora
pois um carro para Patos
inda teria demora.


Fui me sentar em um banco
por trás da Banca do Orlando
e entre pombos e crianças
vi dois velhos conversando
em um debate empolgado
parei, fiquei escutando.

Sentei-me ali no banquinho
onde os velhos dialogavam
e observei que eles
zangados, gesticulavam
me cheguei mais pra ouvir
sobre o que eles falavam.

Era sobre a eleição
que conversavam os velhinhos
metendo o pau nos políticos
(um pau cheio de espinhos)
concordando no debate
que os políticos são mesquinhos.

Dizia um: - Seu João
no lugar em que resido
os dois esquemas políticos
um com o outro é parecido
farinha do mesmo saco
do ditado conhecido.
                                                                                                                         
- Da cidade em que eu moro
o nome é Esquecimento
é perto aqui de Campina
dá pra ir 'té de jumento
lá político passa bem
e o povão no sofrimento.

- No hospital de Esquecimento
o doente é esquecido
não tem médico, não tem leito
nem tem mesmo um comprimido
e morre à míngua se não
pra Campina for trazido.


- Os servidores botados
por favor eleitoral
brigam por seus candidatos
no corredor do hospital
esquecidos dos doentes
que na fila passam mal.

- Ontem mesmo faltou médico
quase morre uma menina
na nossa cidade é
muito fraca a medicina
mas os filhos do prefeito
têm Unimed em Campina.
                                                                 
O outro disse: - Seu Zé
sou também da região
moro perto de Campina
o lugar é Sequidão
e em matéria de política
não difere do seu não.
                                                       
- Porque lá em Sequidão
(prosseguiu Seu João assim)
tem médico que não atende
e quando atende é ruim
parece até que tem parte
com o sangue de Caim.

- Meu amigo, em Sequidão
educação só declina:
os professores mal pagos
prédio escolar em ruína
mas filhos dos candidatos
estudam tudo em Campina.

- Crianças abandonadas
(o Peti lá anda mal)
com matrícula assegurada
na escola de marginal
ficam na rodoviária
pedindo “Dê um real”.
                           
                                     
- O Secretário de Obras
que do prefeito é irmão
calçou ruas no papel
não botou pedra no chão
não fez casa para os pobres
mas pra si fez uma mansão.

- Secretária de Saúde
uma tal Doutora Inácia
com os remédios que chegam
montou pra si uma farmácia
quando alguém toca no assunto
ela diz: “Isso é falácia”...

- Lá o prefeito atual
candidato à reeleição
sequer tinha casa própria
e em um ano de gestão
na praia de Tambaú
comprou uma bela mansão.

- E dessas coisas que digo
não peço segredo não
todo mundo sabe disso
porque lá em Sequidão
o povo só é lembrado
quando é época de eleição.
                                                                 
- Passam anos e mais anos
e de novo nada há
as famílias são as mesmas
que estão no poder por lá
e no canto da perua
é como o povão está.

- O progresso dos políticos
eu vejo e até me “comovo”:
vereador se elege
compra logo um carro novo
depois de eleito só falta
passar por cima do povo.


- Lá em Sequidão havia
nesse mandato passado
um vereador que tinha
um fusquinha enferrujado
se vendeu para o prefeito
comprou um carro importado.

- Na gestão da prefeitura
ilícitos bastantes têm
mas o lado que tá debaixo
não denuncia ninguém
que é pra se ganhar fazer
do mesmo jeito também.

- Tem prefeito que se elege
e abandona Sequidão
as chaves da prefeitura
dá pra amigo e irmão
vai lá uma vez por ano
mas nem é certeza não.
                                                                 
O outro disse: - Seu João
lá na nossa Esquecimento
tem cheira-cu de político
que é o bicho mais nojento
o prefeito é nota zero
e ele diz “É cem por cento”.

- Tem muita gente que o nome
na folha da Câmara tá
comendo dos cofres públicos
sem nunca pisar por lá
só vai no final do mês
que é para o ponto assinar.

- Procissão do padroeiro
(me falou Mané Crizanto)
teve esse ano uma cena
que causou no povo espanto:
políticos trocaram tapa
pra pegar no pau do santo.


- E a música da campanha
diz “Vote com o coração”
que o candidato a prefeito
pelo povo tem paixão...
mas depois que se elege
vai roubar sem compaixão.
                           
- Declara amor à pobreza
diz  ser louquinho por ela
que não quer ver mais a fome
sentada na mesa dela
mas quando se elege comem
só os da sua panela.

- No comício, o locutor
alteando bem a voz
diz: “Meu povo, faça um V
aqui pros nossos heróis”...
Depois que eles se elegem
vão dar o dedo pra nós.

- Os discursos nos comícios
são engraçados demais
disse o prefeito outro dia:
“Eu soube que meus rivais
tão metendo o pau em mim
mas só metem o pau por trás”.

- E em seguida o seu vice
lhe defendeu desse jeito:
“O palanque é de pau duro
e eu subo aqui com o prefeito
e ninguém mete o pau nele
porque isso eu não aceito”.
                                                                                                                         
- Numa palestra outro dia
na rua de Zé de Novo
um doidim que é candidato
discursou pra todo o povo:
“Vocês tão tudo comido
e eu tô aqui só com um ovo”.


- A população se envolve
e enfeita a casa dela:
aprega cartaz na porta
põe bandeira na janela
em uma casa, vermelha
em outra casa, amarela.

- Ontem na rodoviária
baixou até camburão:
duas quengas se estranharam
foi dentada e pescoção
só porque uma chamou
o prefeito de ladrão.

- Dois bebuns trocaram tapa
no mercado, em Zé do Bar
e a polícia também foi
os ânimos lá acalmar
quando souberam, os políticos
fizeram foi graça achar.

- Sexta, a turma do Vermelho
em arrastão animada
desfilava pelo centro
mas teve quem da calçada
(um eleitor do Amarelo)
cobriu tudo na pedrada.

- Os discursos baixo nível
o povo não mais aguenta
num comício, o ex-prefeito
numa cana a mais nojenta
chamou uma vereadora
de cachorra rabugenta.

- E quanto à primeira dama
chamou de amancebada
deixou a mulher mais baixa
do que gilete deitada
e o comício acabou
foi no murro e na pedrada.

                                                                 
- Quem é funcionário público
sem concurso, colocado
quando é tempo de campanha
se vê bastante humilhado:
tem que ir pros arrastões
ou do emprego é arrastado.

- Se o pobre do funcionário
vota na oposição
vai sofrer os quatro anos
a maior perseguição
mudado de um canto a outro
roda mais do que pião.

- Político vira-casaca
lá em nós é o pau que tem
como quem troca de roupa
troca de lado também
sem tá nem aí pro povo
o que quer é se dar bem.

- Semana passada mesmo
nossa cidade assistiu
o opositor mais ferrenho
vereador Zé de Biu
dizer na rádio de lá
que pro prefeito aderiu.
        
- E os dois adversários
que estão em luta tamanha
se acusando um ao outro
para ver quem é que ganha
já formaram chapa juntos
em bem recente campanha.

- O candidato que é vice
na chapa da situação
já comeu o pão que o diabo
amassou na oposição
o que foi que aconteceu
pra mudar de posição?


- Outro dia eu perguntei
a um na cara de pau:
pra você há pouco tempo
o seu parceiro era mau
mudou você ou foi ele?
quem é o ruim afinal?

- “Isso pertence ao passado
(me respondeu o doutor)
o que importa pra nós
agora é paz e amor
e no dia da eleição
o voto do eleitor”...
                                                                 
Olhei assim em redor
começava a juntar gente
pra ouvir os dois velhinhos
naquele debate quente
mas de eu voltar pra casa
já era hora iminente.

Nisso vi parando um carro
João Loló na direção
que me disse: “Vai pra Patos?”
fiz-lhe um sinal com a mão
deixei no debate os velhos
cobertinhos de razão!

Autor é Professor - cordelista - Escreveu " Gramática em Cordel"

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Registro em nosso programa de radio a participação do atual governador Ricardo Coutinho, na primeira entrevista em emissora da cidade de Patos, com telefones abertos aos ouvintes, no período de campanha eleitoral, no programa Estudio Aberto na Rádio Princesa FM. Estavamos acompanhados do nobre jornalista Marcos Nogueira naquela oportunidade.

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